Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Same Same But Different

Um blog repleto de ideias, textos, sonhos e aventuras de uma jovem maravilhada com o mundo em seu redor.

Same Same But Different

Um blog repleto de ideias, textos, sonhos e aventuras de uma jovem maravilhada com o mundo em seu redor.

Maratonista em 3h45

   O despertador tocou às 6h em ponto. Para quem estava muito nervosa, até que consegui dormir bastante bem, depois de adormecer com algumas dificuldades. Comi o meu super pequeno-almoço, ainda que em pouca quantidade porque a ansiedade não permitiu mais, e lá fui apanhar o comboio lotado para Cascais. Mais dez minutinhos a pé e lá estava eu na zona de partida. 

   Andei por ali a vaguear durante uma boa meia hora, pensando "tudo se resume a isto, a este momento, a estas próximas horas. Vou deixar tudo em campo mas vou divertir-me acima de tudo. Porque se não me divertir, isto deixa de fazer sentido". Lá fui para o meu bloco de partida e passados uns minutos soa a buzina que dá início à prova. Até chegar à linha de partida ainda se passa mais um minuto e meio, tal é a multidão.

   Arranco a um ritmo mais lento porque estamos numa maratona e quase toda a gente faz os primeiros quilómetros a passo de caracol. Mas logo no segundo quilómetro entusiasmo-me e faço um ritmo de 5:10. A partir daí o meu ritmo oscilou entro os 4:58 e os 5:15 até mais de metade do percurso, embora provavelmente tenha pago por isso mais à frente. Estava a sentir-me óptima, o tempo não estava quente, nem sequer havia sol. Ir até ao Guincho é sempre maravilhoso e eu percorri aquele caminho dezenas de vezes nos meus treinos pelo que estava a jogar em casa. No Estoril tinha os meus pais à espera e estava motivada para os ver. Tinham uma garrafa de Powerade à minha espera que foi fundamental nos quilómetros seguintes. Em S. João vi mais um conhecido do grupo de corrida e depois na Parede o meu novo companheiro de treinos estava de serviço a cortar uma rua e ainda trocámos umas palavras. "Metade já está feito!" gritei-lhe eu com entusiasmo. Bolas, ia mesmo feliz.

   As dificuldades começaram em Oeiras. Antes disso, ainda voltei a passar pelos meus pais novamente, que fizeram a supresa de me ir esperar junto ao Forte. As pernas começaram a doer, a subida depois do McDonalds ali em Santo Amaro custou horrores, perdi completamente o ritmo e já não o consegui recuperar mais até ao fim. Tinha uma bolha no pé direito, e mesmo com aqueles pensos próprios, já me doía de forma pouco habitual. Lá fui andando, fazendo tempos entre os 5:15 e os 5:35. Por outro lado, parecia que os quilómetros voavam. Quase não dei por eles até chegar à Cruz Quebrada. A partir daí começou a custar a sério.

   Faltavam 10 km. Os primeiros dois ainda fiz mais ou menos, alimentada pelos géis que ia consumindo e pelo Powerade que iam distribuindo nas estações de hidratação. Os últimos oito foram um inferno, só me apetecia desistir. Amaldiçoei-me muitas vezes por me ter inscrito nesta maratona. O sol queimava muito e já deviam estar uns 28 graus. Havia pouca gente a apoiar nessa zona. As pernas doíam-me terrivelmente e a respiração tornava-se difícil. "Faço mais dois e depois logo reavalio" dizia para mim própria. "Se cheguei até aqui, não é agora que vou andar" repetia vezes sem conta, enquanto via o ritmo médio no meu relógio subir consideravelmente. Cheguei aos quarenta prestes a cair para o lado. Achei que os últimos dois já não contavam, que havia muito apoio do público, que teria aquela pica toda de estar quase a chegar à meta...não contam não...custaram mais do que todos os outros juntos.

   No Cais do Sodré valeu o apoio, especialmente de estrangeiros (o que eu adoro os franceses nestas provas!). Os metros passavam e parecia que não avançava. Ribeira das Naus, multidão de um lado e do outro, eu a fazer certamente umas caretas embaraçosas, num misto de dor e de tentar segurar as lágrimas. Praça do Comércio: ainda é preciso ir lá acima dar a volta. Finalmente tenho os olhos na meta e o caminho totalmente desimpedido. 100 metros, ergo os braços e vou a gritar enquanto tenho dois ou três fotógrafos focados em mim porque não há ninguém à minha frente. "Consegui, consegui". E as lágrimas começam a cair. Um turbilhão de emoções como só quem conclui estas provas bem entende.

   Entregam-me a medalha e eu só choro. Entregam-me uma banana e eu continuo a chorar. E depois um gelado e eu choro mais. Consegui, consegui. E agora onde estás tu, que preciso de um abraço teu? Ando à tua procura de forma desesperada. Envio mensagem, ciente de que poderá ser um erro. Entregas-me o teu abraço como nos velhos tempos e eu choro baba e ranho agarrada à tua camisola. Não podia ir para Cannes sem um último abraço. Mas isso fica para amanhã.

22490230_728342717356514_7289349221982246585_n.jpg

Aqui ao km 17, com um sorriso no rosto porque ainda não está a custar nada e porque acabei de ver os meus pais.

4 comentários

Comentar post