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Same Same But Different

Um blog repleto de ideias, textos, sonhos e aventuras de uma jovem maravilhada com o mundo em seu redor.

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Aquela Frase #5

   De momento só me apetece insultar todos os benfiquistas existentes à face da Terra e dar um tiro no Jardel. Em vez disso, deixo-vos uma imagem fofinha. Boa noite.

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O Voluntário de Auschwitz

   Há 2 dias atrás, acabei de ler "O Voluntário de Auschwitz", de Witold Pilecki, o militar polaco que se deixou apanhar deliberadamente numa batida feita pelas forças nazis em Varsóvia para poder relatar ao mundo exterior o que realmente se estava a passar em Auschwitz.

   O livro começa com uma breve introdução à vida do autor, às suas crenças, ao que presenciou no campo de concentração e extermínio mais famoso de sempre, à sua fuga e, finalmente, faz alusão à sua última missão, que era regressar à Polónia e reunir informação secreta para os seus governantes que se encontravam no exílio. Foi apanhado pelas forças soviéticas e condenado à morte.

   Apesar da objectividade com que tentou transmitir aos seus superiores tudo aquilo que presenciou no campo, Pilecki não foi capaz de deixar um comentário pessoal aqui, uma emoção ali e um sentimento acolá, e penso que seja esse o motivo pelo qual este livro deixa de ser um relatório e passa a ser uma história de sobrevivência. E é uma história de sobrevivência completamente sobrehumana, verdadeiramente arrebatadora. Os acontecimentos que ele relata, os esquemas para sobreviver, as informações sobre os prisioneiros que eram espancados até à morte enquanto os outros milhares tinham de ficar à chuva e ao vento, a assistir, os outros que simplesmente eram abatidos a tiro e, mais tarde, o gaseamento de 8000 vidas humanas diariamente, todas essas informações chegaram aos aliados. No entanto, não houve, em 4 anos, qualquer tentativa séria por parte desta aliança para acabar com os horrores que ali se viviam.

   Quando Pilecki conseguiu fugir (uma fuga épica, by the way), e tentou que os seus companheiros aderissem ao seu plano para libertar Auschwitz, estes recuaram e foi-lhe apenas proposta uma condecoração pelos seus serviços.

   A sua história  é francamente mal conhecida nos dias actuais porque o governo soviético tudo fez para abafar a história heróica deste homem. Felizmente que o seu relatório sobreviveu e encontra-se hoje disponível para que o mundo inteiro o possa ler.

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A Parte mais Dura da Profissão

   Hoje assisti à eutanásia de um cão e de um gato, sendo que foi a 2ª e a 3ª vez que assisti à "morte medicamente assistida" Até agora ainda não chorei mas há momentos em que uma pessoa tem de cerrar os dentes e olhar para o lado. É, provavelmente, a parte mais difícil da nossa profissão. 

   Não sei se é mais difícil ver aquelas eutanásias em que um dono declara que, com o dinheiro que usaria para tratar aquele animal, compra três novos para a caça, e depois se senta fria e calmamente na cadeira à espera que o coração do seu cão deixe de bater para ir embora, ou se são aquelas eutanásias em que a dona chora baba e ranho e declara que imaginava o filho daqui a uns tempos a brincar com o gato e afinal tal não vai acontecer. Penso que neste último caso seja mais difícil uma pessoa manter a postura mas é complicado em ambas as situações.

   Eu sou uma pessoa complicada, e por isso tenho sentimentos contraditórios em relação à eutanásia. Por um lado, é óbvio que não queremos nem podemos deixar animais a sofrer e devemos aconselhar os donos quando acreditamos que a hora chegou. Por outro lado, quem somos nós para decidir quem vive e quem morre? Deus? Para já, parece-me uma grande responsabilidade, mas ao mesmo tempo, espero que essa responsabilidade pese sobre mim até ao final da minha carreira. Afinal, quando aquele líquido azul é injectado na veia ou no coração, não há volta a dar. É para sempre.

OMV vs. SOS Animal

   Para quem anteontem estava a ver o Jornal da Noite da Sic, sabe que existe uma enorme tensão entre a Ordem dos Médicos Veterinários e aqueles que pretendem ver aberto o hospital público, nomeadamente, a sua directora clínica, a Sandra Duarte Cardoso.

   A Ordem afirma que praticar preços abaixo dos do mercado é ilegal, é concorrência desleal e que a abertura daquele hospital vai prejudicar centenas de veterinários que lutam por manter as suas pequenas clínicas abertas. Por outro lado, a Sandra diz que tem todo o direito de abrir o seu hospital, que pretende ajudar as pessoas mais carenciadas a tratarem dos seus animais e prestar também auxílio às associações.

   Acontece que em Portugal, as pessoas estão muito mal habituadas. Vão fazer uma TAC ao hospital e pagam uma ninharia porque o nosso SNS acarta com os custos quase todos. Quando levam o cãozinho ou o gatinho a fazer uma TAC, pimbas, logo 150 ou 200€ em cima e ficam chocadíssimas. Os veterinários são logo uns ladrões, que vivem em condomínios privados e têm brutos BMW. Mas a máquina de TAC, que custa uns 50.000€, foi oferecida, claro. Se pagam 120€ por uma cirurgiazeca para retirar os ovários à gata ou à cadela, pimbas, "que roubalheira", não é que um único fio de sutura (e atenção que normalmente se usam uns três por cada cirurgia) custe apenas 4€...fora os anestésicos todos que se usam, os catéteres, os panos de campo, as mantinhas de aquecimento, a luz, os instrumentos todos que custam uma pequena fortuna, a máquina para esterilizar esses intrumentos, cujo investimento inicial é de 5000€, os tubos endotraqueais e mais coisas ainda que são usadas numa cirurgia de 20 minutos.

   Esta senhora, a Sandra, ainda andava na faculdade quando eu estava no primeiro ano. Adivinhem quem é que lhe deu TODAS as respostas do exame de Anatomia I? Pois, eu. E agora, sem qualquer tipo de experiência (denote-se que até a tese de mestrado dela saiu ao lado do tema "Medicina Veterinária" ao ter falado sobre causas de abandono), puff, com a ajuda dos donativos da SOS Animal, que eram suposto servir para auxiliar animais de rua, construiu o belo de um hospital que agora não tem autorização para ser aberto. Vocês viram o equipamento do hospital? Quantos milhares e milhares de euros as pessoas doaram a pensar que iam ajudar a resgatar um animal e afinal apenas estavam a contribuir para pagar uma máquina de raio-x?

   A Sandra veio ainda alegar que era opção deles fazer preços mais baixos e, que se o desejassem, os veterinários de clínicas e hospitais pelo país fora também o podia fazer. Eu, que estou dentro do assunto e dentro do sistema, digo que isso é impossível! Ia tudo à falência se os preços baixassem mais ainda! Porque é que há associações que fazem preços muito mais baixos? Simples, porque recebem donativos e assim conseguem compensar! Começem a dar esmola às clínicas veterinárias e vão ver se não seriam capazes de baixar também os preços!

   Com isto tudo, a minha cara ex colega conseguiu descredibilizar a profissão de 6000 médicos veterinários, denegrindo ainda mais esta classe trabalhadora que já estava tão bem vista e que é certamente das mais ricas do país (para quem não entende, estou a usar a ironia), e morder a mão de quem lhe deu de comer. No final de contas, quem é que sai prejudicado com estas guerras? Os animais, claro.

17 a PCM!

   Eu prometi que ia estudar como uma maluca e tirar pelo menos 17 a PCM, lembram-se? 3 de Novembro, o dia em que eu deixei de parte a estúpida avaliação contínua desta cadeira e decidi que ia a exame. Joaninha, este é só para ti, querida ;)

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Maratona dos Óscares #5

   Birdman, um filme que prometia muito mas que falhou algumas dessas promessas. Começando pelos pontos positivos, a fotografia neste filme está espectacular. A movimentação das câmaras, os jogos de luz, a mudança de atmosfera à medida que mudam os cenários, tudo isto valeu ao realizador algumas críticas mas também muitos aplausos. Eu estou do lado dos aplausos. Não percebo muito destas coisas mas fiquei maravilhada com o cenário e com todo este jogo de perspectivas e ângulos. Pelo lado negativo, achei que o filme tinha demasiada ficção científica. Eu sei que há finais que não é suposto uma pessoa entender nem serem realistas mas aquela última cena era dispensável. Mesmo. Por outro lado, achei que o filme tinha partes mortas a mais, e aquela relação do actor principal com a morena não trouxe nada de novo ao enredo. Morninho, apenas morninho.

   The Immitation Game foi o último nomeado aos Óscares de Melhor Filme que vi (fica-me agora a faltar visualizar mais um). Trata-se de um filme sobre a desencriptação (isto diz-se?) da máquina alemã que codificava todas as mensagens dos nazis na altura da 2ª Guerra Mundial, Enigma, e sobra a história de um homem com uma inteligência fora do comum que é incutido dessa tarefa. A prestação do Benedict Cumberbatch é de se lhe fazer uma vénia, e isso traz logo um interesse diferente ao filme. A Keira Knightley também fez ali umas tentativas para brilhar mas não me parece que tenha lá chegado, ou então foi do pouco protagonismo que lhe deram. A banda sonora está muito bem e também me agradou o guarda-fatos. Penso que os flashbacks acabam por refrescar um pouco a mente dos espectadores de cada vez que surgem e ajudam a explicar na perfeição o nome da máquina que Alan Turing cria para decifrar a "Enigma". No fundo, este filme passa a mensagem de que, por mais brilhante e importante que uma pessoa fosse na altura (e provavelmente nos dias de hoje também), seria sempre condenada e julgada por ser homossexual. Nas notas finais, diz-se que Turing se suicidou um ano após começar a tomar comprimidos impostos pelo governo, que supostamente o poriam "saudável" (ou seja, heterosexual). E diz também que, se não fosse ele e a sua equipa, a guerra teria durado pelo menos mais dois anos e teria custado a vida a mais 14 milhões de pessoas. Ah, e este filme é baseado numa história verídica. Bom candidato!

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Tic Tac

É impressionante como as músicas dos álbums mais antigos continuam a proporcionar-me tamanhã inspiração.

 

   O quarto encontrava-se meio obscurecido, apesar de lá fora o sol brilhar com toda a sua força. Fazia calor, muito calor que entrava pelas fendas da janela mal isolada. Mas ele tinha frio, e não queria o ar condicionado ligado. O silêncio pairava sobre ambos, apenas se ouvia o tic tac constante do relógio de parede. Tic Tac. O tempo estava-se a esgotar.

I'm still awake for you
We won't make it together
We can't hide the truth
I'm giving up for you now
My final wish will guide you out
Before the ocean breaks apart
Underneath me
Remember

   Fazia quase 24 horas que ali estavam, ele, deitado na cama, com a máscara de oxigénio colocada e altamente drogado, ela, sentada numa cadeira a seu lado, com as mãos agarradas à dele e com a cabeça apoiada no colchão da cama.

   -M.? – chamou ele baixinho.

   Ela levantou a cabeça, sobressaltada. Estava no limbo entre a realidade e o sonho e assim que abriu os olhos, o presente atacou-a com todas as forças e sentiu-se como se tivessem acabado de lhe dar com uma frigideira na cabeça.

   -Estou aqui, amor. Está tudo bem – afirmou, esforçando-se por incutir tranquilidade na voz mas sem grande sucesso. Toda ela tremia.

   -Está na minha hora, querida – murmurou ele, puxando a máscara de oxigénio com a mão que não se encontrava refém da mulher e colocando-a ao pescoço. – Está na hora.

   -Não, não, não – lamentou-se M. em desespero, levantando-se da cadeira e voltando a sentar-se na cama, junto do marido. – Não podes partir agora. Isto é uma crise passageira. Vamos voltar para casa e o cancro vai desaparecer.

To me you'll be forever sacred
I'm dying but I know
Our love will live
Your hand above
Like a dove
Over me
Remember
To me you'll be forever sacred

   Ele abriu mais os olhos e tentou sorrir.

   -Não podes ficar em negação para sempre – sussurrou numa voz rouca e apagada, juntando todas as forças que tinha para prosseguir com a conversa. – O cancro não vai desaparecer. Acabou. É o fim da linha.

   As duras palavras atingiram-na como um raio. Lágrimas brotaram dos seus olhos e escorreram-lhe pela face como rios tormentosos. No fundo, ela sabia que aquilo era verdade e que não lhes restava muito mais tempo. Mas a ideia de ficar sozinha naquele mundo atormentava-a de cada vez que tentava imaginar. A dor que a percorria era pior do que se todas as suas artérias, veias e capilares tivessem pegado fogo.

   -Não é justo – balbuciou, entre soluços, limpando as lágrimas que lhe iam caindo pela cara e que saltavam depois no vazio. – Não é justo, partires assim tão cedo.

   Ela não o conseguia olhar nos olhos, agarrando-se apenas à frágil e esquelética mão dele, sem quaisquer intenções de o deixar partir.

   -É a vida. E tu...foste a melhor coisa que me aconteceu nestes quarenta anos.

   B. estava sem fôlego. Falar roubava-lhe todo o ar que tinha nos pulmões doentes. A sua respiração ruidosa e os soluços da rapariga ecoavam no quarto. Permaneceram em silêncio durante alguns segundos e tudo se aquietou.

   -Promete-me que ficas bem, e que não vais desistir até encontrares de novo a felicidade – declarou ele, num último esforço.

You break the ice when you speak
With every breath you take
You save me
I know that one day
We'll meet again
Try to go on as long as you can
Even when the ocean breaks apart
Underneath you
Remember

   Ela suspirou e voltou a passar as costas da mão pela face, pigarreando. Aqueles eram os últimos instantes e ela queria que durassem para sempre. Fez uma tentativa para sorrir e debruçou-se sobre o marido, depositando um beijo sobre os seus lábios secos e já frios.

   -Prometo. Também foste a melhor coisa que me aconteceu na vida. Amo-te.

   Trocaram um último beijo, ele sorriu e, com os lábios, devolveu-lhe o “amo-te”. Os seus olhos brilhavam mas não chorava. O tempo de verter lágrimas há muito que para ele se havia esgotado.

   M. aninhou-se no peito dele, com cuidado para não exercer pressão sobre o seu tórax. Ele abraçou-a como pôde e beijou-lhe os cabelos. “Tic tac” e uma respiração ruidosa durante três minutos. Depois disso, apenas “tic tac”.

Forever you
Forever sacred
Forever you
You will be sacred
In your eyes
I see the hope
I once knew
I'm sinking
I'm sinking
Away from you.

Sobrevivi!

   Mais 24 horas feitas em São Bento e sobrevivi! Ontem houve muito movimento, catéteres a entrar e a sair a toda a hora. Até durante a noite houve várias urgências. Devido a ter dormido muito mal na sexta e praticamente nada durante esta noite, hoje de manhã estava completamente rebentada mais ainda consegui tratar dos animais e ficaram todos vivos e contentes (dentro do possível) quando parti.

   Entretanto dormi a bela de uma soneca até agora mas como tenho o último exame amanhã às 8h da manhã, um post mais interessante do que este terá de ficar para breve.

E esta sou eu com os bichinhos do internamento :D

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