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Same Same But Different

Um blog repleto de ideias, textos, sonhos e aventuras de uma jovem maravilhada com o mundo em seu redor.

Same Same But Different

Um blog repleto de ideias, textos, sonhos e aventuras de uma jovem maravilhada com o mundo em seu redor.

Campeonato Nacional de Escrita Criativa #4

Quarto desafio: escrever um texto com um máximo de 300 palavras que comece e acabe com a palavra "fica".

 

Fica deitada no sofá, com os olhos tristes fixos em mim, enquanto acabo de arrumar a mala. Suspira. Ainda é de madrugada e as pálpebras pesam-lhe mais do que a curiosidade dos meus movimentos. Engulo em seco antes de selar a bagagem com o cadeado, fazendo-o com parcimónia. Julgo que lhe chamam a síndrome do Peter Pan, esta ansiedade que me rói, este medo do que está do outro lado da porta, esta vontade de ser pequenina outra vez, nos braços da minha mãe.

A pequena volta a abrir os olhos quando me dirijo a ela. Percebo as sobrancelhas que se erguem e relaxam, o narizinho a remexer o ar, um bocejo incontrolável mas não lhe decifro o pensamento (será que alguma vez alguém decifra?). Ponho-me de cócoras ao lado dela e afago-lhe a cabeça. De imediato escorre uma lágrima rebelde e todas as outras a seguem, como se fossem para a guerra. Sei que ela fica bem, na casa onde sempre morou, com as pessoas com quem sempre viveu. Sou eu quem vai desmoronar com a saudade assim que chegar ao aeroporto. Para ela é só um quarto vazio, uma hora de brincar que se esfuma, um prato por encher à hora certa da refeição. Para mim, é um buraco negro que se me abre no peito.

São escolhas que se fazem. Ou escolhas que a vida faz o favor de fazer por nós sem que sobre elas possamos opinar. Deposito-lhe um beijo no topo da cabeça, cerrando os dentes para não soluçar. Passo-lhe uma mão trémula ao longo do corpo e a minha pressão sanguínea baixa automaticamente. Já chega de despedidas. Ela olha-me, magoada. Já entendeu que estou de partida. Prometo-lhe não tardar, que o tempo passa depressa. Afasto-me, não sem antes murmurar “Linda menina. Fica”.

Afinal sou Humana!

   Dizem-me muitas vezes que sou uma máquina. No bom sentido, de ter uma boa memória, de ter um raciocínio rápido, etc. Hoje disseram-me para não me esquecer que também era humana - e com isto, que tinha direito a ter sentimentos, a errar, a ser imperfeita. E soube tão bem!

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Campeonato Nacional de Escrita Criativa #3

Terceiro desafio: descrever um reencontro não utilizando mais de 300 palavras.

 

O dia amanheceu frio e chuvoso, nada de novo naquela região do país. O velho levantou-se com pesar, sem vontade de cumprir a promessa aos homens de negro que se tinham apresentado em sua casa no mês anterior, pedindo-lhe que comparecesse à cerimónia. Elegeu o fato mais sóbrio e perfumou-se com a fragrância mais soturna que conseguiu encontrar numa gaveta da cómoda que há anos permanecia intocada.

A filha veio ajudá-lo a dar um nó na gravata e a descer o vão de escadas que o separava da rua, mal sabendo ela que o pai só precisava de auxílio para desapertar o laço que se havia instalado no peito e esquecer para sempre aquele aniversário.

Vieram buscá-lo numa viatura discreta, prometendo-lhe que encontraria os restantes convidados dentro do recinto. Pelo menos aqueles que haviam aceitado o convite. O velho não se dava bem com reencontros, com memórias do passado, com viagens no tempo que lhe recordavam as marcas que os anos haviam deixado no seu corpo já flácido. Preferia deixar tais devaneios para as novas gerações, por demais melancólicas com o tempo que já lá vai.

Reconheceu o perímetro antes mesmo do carro se imobilizar, não tanto pela conformação do recinto ou pela topografia do terreno, mas antes pelo cheiro. Ao fim de cinquenta anos, o ar ainda lhe sabia a carne queimada.

Deixaram-no junto aos portões principais com a justificação de que daquele ponto em diante os carros não podiam circular. O homem hesitou antes de estender a mão nodosa a fim de agarrar o braço que a filha colocara ao seu dispor, nauseado. Por cima dos portões imponentes, liam-se as mesmas palavras que ele tão sabiamente decorara no exacto dia em que ali estivera pela primeira vez. “Arbeit macht Frei”. Auschwitz. Cinquenta anos depois.

52 Semanas: Semana 18 - Sinto saudades...

De tanta coisa, bolas!

   1. Do tempo em que a minha avó não tinha Alzheimer. É uma doença muito mais difícil para os familiares do que para o próprio doente. Uma verdadeira tristeza. Mas como estou sempre a dizer à minha mãe, "é a vida".

   2. Do Verão! Por norma não gosto muito de calor mas já chega deste tempo horrível!

   3. De não ter preocupações. Notas, estágios, desempenhos, (des)emprego, homens, responsabilidades...gostava de ter seis anos outra vez!

   4. Da Tailândia. Dos meus elefantes, mais concretamente. O paraíso na Terra. Ainda não percebi o que é que ainda estou aqui a fazer.

   5. De fazer mergulho. A água é o meu elemento. E a vinte metros de profundidado o silêncio é abençoado. Não há ninguém para me chatear.

Lembras-te? #9

   Lembras-te de trepar às árvores? Não interessa onde nem quando mas lembras-te? Eu adorava subir pelos troncos acima, esfolar braços e pernas até alcançar um ramo alto, de onde pudesse observar a paisagem. Desde as árvores da escola, junto ao campo de futebol, cujo acesso foi depois vedado por precisamente, estarmos constantemente a trepar por elas acima, passando pelos mostruosos troncos da Casa da Guia, até aos eucaliptos para os lados de Manique, sem esquecer a velha ameixoeira do jardim, eu era uma verdadeira conquistadora de árvores. Fazia delas o meu forte, o meu barco de piratas, a minha casa, o meu refúgio. Que saudades de chegar a casa com um joelho esfolado e um sorriso rasgado!

É o Slimani!!

   Rita vai na rua a passear cadelas e avista um ajuntamento de jovens. Acha estranho quando pára um carro e sai de lá um puto que pede à mãe para lhe tirar uma foto com um deles. Rita apercebe-se de que é Slimani quem ali está e apressa o passo até casa. Deixa as cadelas ainda atreladas e corre a avisar toda a gente que o jogador sportinguista está lá em baixo. Toda a gente em casa corre à janela e posteriormente para o elevador. Mano, pai e Rita tiram foto com Slimani. Família feliz. Muito feliz. 

   Amanhã lá estaremos no estádio para apoiar o nosso grande amor!

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Campeonato Nacional de Escrita Criativa #2

   Segundo desafio: escrever um texto com um máximo de 300 palavras no qual se incluam pelo menos uma vez as seguintes - "amor", "voo", "canção", "ferida", "medo" e "beijo".

 

   Se hoje me implorasses para ficar, eu não pensava duas vezes. Sabes quão furiosa esse pensamento me volve? Ter consciência de que poderia abdicar de todos os meus sonhos, de todos os objectivos que alguma vez delineei para a minha vida, de todas as conquistas que planeio alcançar, só para me deixar embalar pela tua canção? Quase que te consigo odiar por me fazeres amar com esta intensidade, por me obrigares a pôr em causa tudo o que sempre quis para a minha vida. Não era suposto teres acontecido. Que ideia foi essa, roubar-me assim um beijo mesmo antes de eu colocar um oceano de distância entre nós, de apanhar um voo para outro continente onde tu ainda não foste inventado, de ganhar asas e ser finalmente livre? Usurpaste-me a racionalidade lógica e milimétrica da vida, aquela pela qual eu me rejo desde que há memória, e vagueio agora por um labirinto ignoto de incoerências, tiritando de medo e insegurança, espreitando por cima do ombro, à espera de ser atropelada por emoções há muito escondidas. Fizeste-me esquecer o que nunca fui, para ser o que sempre quis. Será por isso que se torna tão difícil partir? O antagonismo da história é obrigares-me a escolher e eu, ainda assim, eleger-te a ti. Porque na brevidade daquele olhar, mergulhado no silêncio das palavras (nunca me pediste nada, para ser sincera), criaste em mim uma ferida que não tem como sarar. Se ficar, culpar-te-ei para todo o sempre. Se partir, esta faceta que em mim surgiu apagar-se-á para a eternidade como uma mancha de tinta que na verdade não chegou a tingir o papel. Porque isto do amor é coisa de loucos.

Aquela Frase #12

tumblr_nh26jl5zjh1rlyybco1_1280.jpg   3 dias meio a rastejar e já estou de novo de pé. Resiliência foi uma palavra que uma querida professora do secundário me ensinou e que carrego comigo no coração. Há solução para tudo menos para a morte.

 

Campeonato Nacional de Escrita Criativa #1

   Há cerca de dez semanas atrás, inscrevi-me no 30º Campeonato Nacional de Escrita Criativa. A cada semana era enviado um desafio aos participantes e as classificações chegavam-nos uns dias depois, sendo que o(s) texto(s) vencedor(es) de cada jornada eram publicados na página oficial do campeonato. De um total de 108 participantes, fiquei na 18ª posição (só porque o meu nome começa com "R" porque na verdade acabei com a mesma pontuação do 16º), o que não é nada mau e ainda tive o meu texto da 8ª jornada em destaque ao ser o vencedor da mesma. Para quem gosta de escrever, recomendo vivamente que abrace um destes desafios de escrita criativa porque puxam por nós, obrigam-nos a trabalhar os textos e empurram-nos muitas vezes para fora da nossa zona de conforto. Eu adorei e se tivesse mais dinheiro já estava inscrita para outro!

   Durante as próximas cinco semanas, à terça e à quinta, irei publicar por ordem cronológica os meus textos com o respectivo desafio. O primeiro consistia em escrever um texto com não mais de 300 palavras começado por "Quando chegaste". Cá fica o meu.

 

   Quando chegaste, não sabia que vinhas para ficar, não percebi que era para sempre. Julguei que estivesses apenas de passagem. Instalar-te assim em mim, corroendo aos poucos a fechadura que eu em tempos colocara no meu coração para o proteger, propagando-te diariamente pelos meus pensamentos como um odor que não se dissipa, perseguindo-me em cada sonho na tentativa de influenciar o meu subconsciente e fazendo-me companhia nas horas vagas de solidão. Entraste nos meus dias de uma forma tão discreta, quase como a água da chuva penetra na terra húmida e se deixa absorver pela mesma até alcançar a raíz de uma planta, que a princípio nem notei. Eras só uma imagem ocasional que surgia na minha mente, algo assim semelhante a um primo afastado do qual nos recordamos três vezes por ano. Depois passaste a ser um pensamento inquieto, um nervoso miudinho, um desviar tímido do olhar, um sorriso envergonhado. Passaste a ser horas, minutos, segundos e tudo mais o que exista por aí inventado por alguém com pressa para contabilizar o tempo. Tornaste-te dia e noite, luz e escuridão. Possivelmente também amanhecer e ocaso. Transformaste-te no meu mundo, e em tudo o que nele existia. Engraçado, sabes que sempre pensei que só com martelos e picaretas se conseguiriam deitar abaixo as paredes que eu construí em torno de mim própria? A minha cortina de ferro? O muro de Berlim feito à minha medida, erigido para guardar segredos, medos, vícios? Mas vieste tu, com o teu sorriso fácil, o teu entusiasmo desmedido, a tua vontade de viver. E isso bastou para deitar por terra as muralhas que levei anos a construir. Agora que chegaste, fica.

Segunda Escolha

   Foi bom saber que sou a tua segunda escolha. Obrigada por avisares. Não sei bem o que sinto em relação a isto (na verdade, estou numa apatia completa, não consigo sentir absolutamente nada) mas de uma coisa tenho a certeza: deixaste de ser a primeira, a segunda ou a minha última opção. Não te quero mais na minha vida porque não aguento outra facada nas costas como esta. Ouvir o tinir metálico da lâmina a rasgar-me a carne, observá-la a perfurar-me os pulmões e vir roubar-me o ar e contorcer-se como se estivéssemos perante um cenário dantesco de tortura.

   Não acredito que não vieste ter comigo primeiro. A perplexidade infiltra-se em mim num profundo lamento de cepticismo. Será revolta? Será mágoa? Rancor? Ou simplesmente uma imensa e imperscrutável tristeza? Não consigo dizê-lo porque o que se instala em mim agora é um desinteresse absurdo, um vazio inexplicável, uma inércia como nunca antes experenciei. Fogem-me as palavras sob o chão que desaba. Escorregam-me os sentimentos, abandonando o corpo. Desvanecem-se os sonhos, perdendo-se na neblina. Parece que fugi de mim própria depois de saber o quanto vale o esforço de todos estes anos - nada.

   Por vezes ocorre-me que seria melhor se tivesse ficado na ingorância mas na verdade foi melhor assim. Sem ilusões a partir de agora. Sem expectativas. Apenas um pouco mais fria, distante e oca.