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Same Same But Different

Um blog repleto de ideias, textos, sonhos e aventuras de uma jovem maravilhada com o mundo em seu redor.

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Cai Neve no Tennessee

   Os primeiros flocos começaram a cair ontem quando saíamos do hospital. Caíam com intensidade, pintando os nossos cabelos e roupas de branco mas ao atingirem o solo adquiriam uma coloração azulada. Não eram delicados e leves como nos filmes, tombando com a mesma rapidez e brusquidão de um pingo de chuva. Mas eram os primeiros e fizeram os meus olhos encher-se de lágrimas de felicidade. Esta manhã já quase não havia neve no chão. No entanto, por volta das nove da manhã, voltaram a cair alguns flocos que não chegaram a formar um manto branco mas permitiram que tirassemos algumas fotografias para a posteridade. Agora que a noite caiu, neva bastante lá fora e a previsão é que assim se mantenha até às nove da manhã devido às temperaturas próximas dos dez graus negativos. O plano é apanhar cedo o autocarro para a baixa e tirar umas boas fotografias se houver uma camada de neve aceitável. 

   Espreito agora pela janela e tudo me parece um conto de fadas. O chão coberto por um manto branco, os flocos a tombarem incessantemente, visíveis graças às luzes dos candeeiros que iluminam a rua, os telhados inclinados onde repousa uma camada decente de matéria branca, o ambiente gelado que se imagina do outro lado do vidro (e aqui dentro de casa tão quentinho), os carros que amanhã irão permanecer no mesmo sítio, incapazes de se mover, um desejo adiado semana atrás de semana que se veio agora a concretizar. O ano não podia começar melhor.

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Grand Central Station de Madrugada

   Depois de entrar em 2017 em Times Square e de ter vagueado pelas ruas de Nova Iorque durante algumas horas para ver as luzes de Natal e matar saudades da cidade, decidi que o melhor era passar o resto da noite na Grand Central Station, já que não tinha nenhum quarto reservado. A temperatura estava agradável e estava longe de ser a única a passar a noite encostada a uma das paredes da estação mais famosa dos Estados Unidos. Acabei por lá passar quase quatro horas, só saíndo aos primeiros raios de sol. E durante todo esse tempo limitei-me a observar as pessoas, que é coisa que aprecio fazer. Desconhecidos a travarem conhecimento, sem abrigo em busca de refúgio, miúdos bêbedos de alegria (e de tequila também) aos saltos pela estação. Cada um deles com uma história de vida diferente, um rumo distinto, um futuro incerto.

   Um casal aos beijos no chão e um homem carrancudo que os avisa que não podem estar em tais propósitos em público. Miúdas com mini saias atrasadas para o comboio a correrem descalças com os tacões de dez centímetros nas mãos, outras cambaleando meio despidas, meio sem destino. Um tipo a vomitar num caixote do lixo à minha frente. Meia hora debruçado sobre o próprio estômago, abanando a cabeça, zonzo, infeliz. Que triste forma de começar o ano. Uma sem abrigo a dormir a um canto, sobre os seus parcos pertences. Vi-a na casa de banho da estação à chegada a Nova Iorque. Esbracejava e falava sozinha. Mas naquele momento repousava pacificamente, como que conformada com a vida. Duas raparigas a discutirem com um rapaz que não conheciam por causa de uma tomada. Ele vai e volta. E discutem um pouco mais. Uma delas levanta-se e tenta agarrá-lo como se o conhecesse há muito tempo. Ele empurra-a mas logo se arrepende. Discutem um pouco mais mas de uma forma quase carinhosa. Parecem um casal. E por fim ele parte. A polícia sempre a rondar, não querem ninguém a dormir no chão. A equipa médica dá voltas à estação numa espécie de carrinho de golfe, espreitando os sem abrigo. Um casal gay na casa dos cinquenta conversa à minha frente. A forma com que um deles olha para o outro faz-me desejar que algum dia alguém me olhe da mesma maneira. Fico de coração cheio mas o sono aperto. Fecho os olhos durante meia hora. E o dia surge, é hora de ir em busca de café.

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Times Square está sobrevalorizada

   Pronto, já disse. Mas comecemos pelo princípio. Quando fiz anos, decidi que queria que me oferecessem um bilhete de avião de Knoxville para Nova Iorque para a passagem de ano e seria prenda de aniversário e Natal. Ficou bastante em conta tendo em mente a data e o destino mas só há cerca de dois meses atrás me apercebi que o destino final à ida não era propriamente New York mas sim Newburgh, que fica a 1h30 de comboio da Big Apple. Por um lado foi óptimo porque a vila estava cheia de neve e ainda tive uma hora para passear depois do avião aterrar e antes de apanhar o comboio. Quem me visse a brincar com a neve diria que era uma criança feliz. Por outro lado foi um desvio que me custou algumas horas.

   Chegada a Nova Iorque fui directa para o local do espectáculo. Muitas ruas estavam cortadas, a confusão era imensa, ninguém parecia saber bem para onde ir uma vez que não havia praticamente repetentes de anos anteriores. Acabei por encontrar uma pequena multidão que estava a "fazer fila" para entrar no recinto e aí permaneci até começarem a deixar as pessoas entrar. Quando cheguei ao destino final, onde passei as seis horas mais agoniantes da minha vida devido ao frio, cheguei à conclusão que se tivesse continuado a caminhar para Norte talvez tivesse conseguido um lugar melhor, de frente para a "Ball Drop" e não na lateral, como aconteceu. Mas nessa altura já seria provavelmente tarde demais e dali conseguia ver o fogo de artifício e a bola quase na sua totalidade.

   As horas que se seguiram foram terríveis. Pés gelados apesar das meias, collants e botas, mãos geladas apesar das luvas, cara gelada apesar de ter usado o cachecol para proteger a boca e o nariz. Dores no corpo de estar em pé no mesmo sítio, cansaço por ter acordado antes das seis da manhã e impaciência. Eram às centenas as pessoas a desisistirem e eu por pouco não o fiz. Mas era o meu presente de aniversário,estava em NY exclusivamente para aquilo e aguentei o frio não sei como. A certa altura pensei em pedir a um dos polícias para me chamar uma ambulância só para poder usar aqueles cobertores que parecem alumínio que eles têm. Quase 48 horas depois ainda me doem os músculos da cara de tanto tremer. That's how bad it was.

   Finalmente a meia noite chega, dois ou três minutos de euforia, a bola faz a sua descida, fogo de artifício por todo o lado, milhões de confetis e já está. Oito horas de tortura para dois minutos espectaculares. Vale a pena ver uma vez na vida. É o que toda a gente diz. Mais do que isso é loucura. Por isso é que praticamente não se encontram repetentes. Risca da lista e parte para outra. Feliz 2017!

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 A neve em Newburgh fez de mim uma criança feliz :)

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A minha posição relativamente a Times Square. Não era má mas fiquei muito na lateral

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 A famosa "bola"

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 Dia excelente em NYC para começar bem o ano: passeio no Central Park de manhã e compras em Times Square à tarde antes de regressar a Knoxville!

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