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Same Same But Different

Um blog repleto de ideias, textos, sonhos e aventuras de uma jovem maravilhada com o mundo em seu redor.

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À 5a foi de vez

   Um dia tive um sonho. Mas era um sonho irrealista. Queria correr em Boston, percorrer os 42,195 quilómetros da maratona mais famosa e prestigiada do mundo. Não está ao alcance de todos realizar a inscrição. Não estava ao meu alcance, nem naquela altura, nem estaria nunca, julgava eu. 

   Para alcançar a qualificação existem tempos mínimos a fazer, que variam segundo a idade e o sexo. Para as mulheres entre os 18 e os 34 anos, esse tempo é de 3h35. Mas nos últimos anos tem havido tantas inscrições que as últimas classificadas desta categoria têm tempos de qualificação de 3h32 ou 3h33.

   Depois de no ano passado fazer Lisboa em 3h45 nem sequer me ocorreu. Já tinha tirado mais de meia hora em tempo à minha primeira maratona e não me via baixar muito mais. Veio o Nice-Cannes e atingi as 3h37. Uma surpresa, uma esperança, a ponta de um iceberg. Ainda assim, reduzir quatro minutos parecia impossível. Veio Paris e eu sabia que não seria ali. Cometi erros atrás de erros nos dias anteriores à prova. E na verdade estava ali para apreciar o caminho e não para pensar em tempos. 3h38 e o sonho a afastar-se.

   Genebra. Sabia que o percurso era rápido. Depois li que metade dos participantes do ano anterior tinham batido o recorde pessoal da maratona naquela prova. Comecei a ver vídeos motivacionais todas as noites. Treinei com mais afinco. Incluí séries e treinos de força nos meus planos, apesar de não gostar nada. Tive mais cuidado com a alimentação. Acreditei que seria possível. E se não fosse ali, não sei se algum dia voltaria a ser.

   No domingo, dia da prova, acordei com dores musculares por ter caminhado tanto nos dias anteriores por Genebra. Primeira chapada na cara. Ao quilómetro 15 vi o senhor da bandeira das 3h30 fugir de mim a toda a velocidade. Segunda chapada. Vinte e cinco graus ao sol, percurso pelo meio do campo, público quase nulo. Terceira, quarta e quinta chapada. Boston não era e não seria nunca para mim. Estava em sofrimento. Decidi continuar ao meu ritmo e cantar as músicas que iam tocando na minha playlist. Apreciei a paisagem. Sorri para a dor. Agradeci todos os incentivos ao longo do percurso. E sem saber como, devagarinho, lá me voltei a aproximar da bandeirinha das 3h30. Ao quilómetro 33, numa descida, alcancei-a. E depois dessa descida, ultrapassei-a. Naquele momento soube que não somente era possível como o ia fazer. Já não iria adormecer nunca mais de lágrimas nos olhos a imaginar como seria cruzar a meta de uma maratona sabendo que acabara de me qualificar para Boston. Bastava voltar aquele instante.

   Cruzei a meta em 3 horas, 30 minutos e 21 segundos. Chorei. Chorei tanto. Antes de receber a medalha, durante, depois, enquanto comia e bebia e a caminho do aeroporto. Correr Boston é o sonho dos sonhos de qualquer maratonista amador. E eu consegui a qualificação. Se tudo correr bem, no dia 15 de Abril de 2019 lá estarei, a defender com orgulho as cores de Portugal.

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