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Same Same But Different

Um blog repleto de ideias, textos, sonhos e aventuras de uma jovem maravilhada com o mundo em seu redor.

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Desabafo

   Confesso que uma parte de mim escolheu Medicina Veterinária para lidar com animais e não com pessoas. Bem, saiu-me o tiro pela culatra porque afinal o que mais faço é lidar com pessoas. E se há algumas que são amáveis, compreensíveis, bem dispostas e inteligentes, também há muitas neuróticas, intransigentes, impacientes, chatas e reclamativas (esta palavra existe?).

   Elaborei portanto um top 5 com os comportamentos que mais detesto quando estou de serviço e tenho a dizer que não passa um turno sem que pelo menos um destes ocorra.

1. São 4 da manhã. O telefone toca. "Boa noite, o meu cão está a vomitar e com diarreia há quatro dias, posso passar aí agora?". NÃO, DEIXA-ME EM PAZ!! É o que tenho vontade de gritar ao telefone. Mas geralmente digo apenas com a maior amabilidade possível que se o cão está a vomitar e com diarreia há quatro dias, provavelmente não irá morrer se esperar mais quatro horas para vir a uma consulta diurna normal, ao mesmo tempo que penso "que raio de ser humano deixa o seu companheiro a sofrer durante quatro dias e se lembra que se calhar é melhor levá-lo ao veterinário às quatro da manhã". Se a pessoa insistir, digo-lhe para vir mas que como estamos a meio da noite vai pagar o triplo pela consulta e o dobro por tudo aquilo que eu fizer. Às vezes eles pensam duas vezes, agradecem a disponibilidade e chegam à conclusão que se calhar o Bobby aguenta até às oito da manhã. Se aparecerem mesmo, das duas uma: ou são excêntricos/malucos ou então o Bobby já está com três patas dentro da cova (às vezes quatro).

2. "Li no Google...". Leste o quê, pá? Que o quiabo é um óptimo tratamento para o vírus da esgana? Que esterilizar a gata é mau porque ela desenvolve tumores no cérebro? Alguém no fórum da Arca de Nóe deu um paracetamol ao coelho e ele milagrosamente recuperou de uma fratura? Uma pessoa passa sete anos a tirar um curso e depois duvidam daquilo que dizemos porque "leram no Google". É um tiro na alma.

3. Estou a meio da consulta e é uma da manhã. A dona do gatinho não fala muito mas mantém os olhos muito abertos fixos na minha pessoa. Quando acabo de auscultar parece ganhar coragem para perguntar "(Já) é veterinária?". NÃO PORRA! Estou aqui sozinha neste hospital à uma da manhã a fazer perguntas e a examinar o seu animal e sou auxiliar, queres ver?! Ou então a minha identificação na blusa diz claramente "doutoura" mas na verdade sou estudante. Esta acontece com frequência e às vezes olham para mim com tamanha suspeição que me sinto mal. Sei que sou jovem mas caramba, é outro tiro na alma.

4. "Ah, ele sempre foi comilão mas desde ontem que não deixou de comer". E o cão tem as costelas todas à mostra e já não se levanta com a fraqueza. Acontece o mesmo para a massa de dez centímetros no dorso que "cresceu esta manhã de repente, sra doutoura". Geralmente, uma pessoa que tirou o curso de veterinária é inteligente o suficiente para perceber que é mentira. Geralmente. 

5. "Queria falar com o dr. X". Não está. "Mas podia ligar-lhe e dizer que é a fulana Y por causa do Bolinha". É domingo e o dr. X está de folga. "Como assim está de folga a um domingo? Mas vocês não podem ter folgas, são veterinários e têm de salvar vidas 24/24, 7 dias por semana, sem direito a folgas ou férias!". Pois, infelizmente somos seres humanos e não máquinas. "Mas ligue e diga que é a fulana Y, de certeza que ele está disponível para mim". Nope, provavelmente, entre tantas centenas de clientes, ele não faz a mínima ideia de quem é nem qual é o problema do Bolinha. E esta última frase já não é para dizer ao cliente senão lá se vai o nosso emprego .
 
   Existem muitas mais coisas que me enervam no meu trabalho quando lido com as pessoas - as que pensam que tenho uma bola de cristal, as que saem da clínica a insultar toda a classe de veterinários por causa do preço das urgências, as que vêm e depois não vêm e depois decidem talvez vir daqui a três horas e depois se calhar deixam antes para o dia seguinte e o veterinário que fique toda a noite à espera, as que querem o antibiótico à força porque fez bem ao gato da vizinha, as que querem que prometamos que o cão vai sobreviver quando acabou de ser atropelado por um autocarro da Carris (aqui não é Carris mas percebem a ideia) e está cortado em fatias ou as que aparecem porque o coelho deixou de comer há uns dias e não podem ficar uma hora à espera da consulta (a sério, quantas horas esperam num hospital público, raios??) porque eu estou a meio de outra e tenho quatro animais epilépticos a vigiar no internamento mais um gato paraquedista que voou do 5º andar há um par de horas e tive que adormecer sozinha para colocar uma via endovenosa e iniciar os tratamentos. Mas o que vale é que depois há pessoas maravilhosas, gratas e algumas raras ainda que se apercebem da dureza que é ser médico veterinário nos dias de hoje. E depois há gatinhos bebés, claro. Senão já tinha desistido disto tudo e seria uma ermita a viver escondida da sociedade numa remota montanha nepalesa.
 
   E agora que já desabafei um pouco, é hora de recuperar destas noites horríveis que tenho tido e passar três míseros dias na pátria a comer sardinha, a beber sangria e a dançar ao som de música pimba para ver se me passa este azedume.

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