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Same Same But Different

Um blog repleto de ideias, textos, sonhos e aventuras de uma jovem maravilhada com o mundo em seu redor.

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Maratonista em Paris

   Ainda não arranjei uma maneira de explicar, as palavras certas, as emoções correctas, o sentimento que transborda em nós. Penso que a razão é simples - é impossível de exprimir. Há que viver. 

   Cruzar a linha de uma maratona é qualquer coisa de absolutamente incrível que só quem vive consegue saber. E não é algo que mude com o passar do tempo ou com a realização de várias provas desta envergadura. Pelo menos no meu caso, parece que a cada maratona que corro, a emoção é maior e maior. E Paris então foi...não tenho a palavra certa, peço desculpa. Passaram trinta e seis horas e de cada vez que me lembro da minha chegada à meta junto ao Arco do Triunfo, com um sorriso nos lábios, as lágrimas nos olhos, envergando lá bem no alto uma bandeira enorme de Portugal, ainda choro que nem um bebé.

   A partida nos Champs Élysées é logo motivo de comoção. "Controla-te Rita, controla-te" vou repetindo para mim mesma, já no bloco de partida, enquanto os meus olhos teimam em se encher de água. Ao meu lado, dezenas de milhares de atletas saltitam no mesmo sítio, respiram fundo, consultam o relógio, tiram fotografias para mais tarde recordar, repetem mil vezes nas cabeças deles "tu és capaz". O tempo está perfeito para uma corrida de 42 quilómetros.

   Antes da partida, toda a gente aqui em França faz o "clapping". Toda a gente aplaude, toda a gente ri, toda a gente canta e dança. E de repente é dada a partida. O ritmo cardíaco dispara, o sangue flui para a cabeça a toda a velocidade, os músculos põem-se em movimento. Descida dos Champs Élysées até à Concorde. E que ambiente, que emoção, que alegria! Logo ali está um homem com uma bandeira portuguesa. E eu entro logo em euforia!

   Ao quilómetro cinco os meus pais esperam por mim. Só os vejo porque a minha mãe me identifica e grita por mim. A multidão é imensa, o apoio incrível. As pessoas gritam, batem palmas, têm cartazes, instrumentos, bonecos, flores. Chamam pelo nosso nome (estava escrito nos dorsais) como se fossemos da família. Mais uma vez tenho de fazer um esforço enorme para conter as lágrimas.

   Entramos no Bois de Vincennes, a parte mais dura do percurso. Muita subida, menos gente a apoiar, o ritmo inicial a perder-se à medida que os quilómetros avançam, a necessidade urgente de comer algo que dê energia. Para mim, os quilómetros mais duros foram entre o cinco e o vinte. Depois disso voltámos a entrar nas ruas mais conhecidas de Paris e parece que tudo se transformou num passeio turístico. O Louvre do lado direito, a Notre Dame e a Tour Eiffel do lado esquerdo, um passeio ao longo do Sena. A cada vez que surgiam os fotógrafos oficiais, eu fazia uma pose diferente, sorria, saltava, levantava os braços. Uma alegria tremenda. Ainda estive na cavaqueira com um português de Espinho que viu que eu tinha a brandeira presa à cintura e depois ainda dei força a um outro tuga mais adiante que também levava a sua bandeira às costas.

   O pessoal dos postos de abastecimento foi fenomenal. Uma coisa como nunca vi. Aproximava-me para ir buscar água ou alimento e era vê-los a gritarem por mim, a dizer "allez allez Rita" ou "courage". Realmente o povo francês nestas coisas é irrefutavelmente imbatível.

   A partir do trinta e seis voltou a custar mais um pouco. Estava à espera de ver os meus pais mas eles estavam quase ao nível da meta e já não os voltei a avistar. Perdi a conta às centenas de pessoas que gritaram por mim e a todos os agradecimentos e sorrisos que devolvi. Todos foram especiais mas emocionei-me com os portugueses a apoiar ao longo do percurso. 

   Quando vi a placa a marcar 41km pensei "está feito". Um último esforço, um último quilómetro, o meu relógio a dizer-me que tinha feito mais 700 metros do que a quilometragem real (ter-se-á desorientado no túnel?), uma massa de gente de um lado e do outro, toca a tirar a bandeira da cintura e colocá-la às costas, o tapete verde lá ao longe a indicar os últimos cem metros, tempo de acelerar. Passo pelos fotógrafos oficiais de braços erguidos e o símbolo de Portugal a voar atrás de mim. Que momento, senhores, que momento! Cruzo a meta com a emoção estampada no rosto. 

   Respiro fundo. Consegui. Faço um directo para o instagram do momento em que recebo a medalha. E depois começo a chorar. Não há explicação, é qualquer coisa de outro mundo.

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 Meia hora antes da partida, ambiente incrível nos Champs Élysées

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 A medalha é afinal muito mais bonita do que julgava quando vi as primeiras fotos no Facebook

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 Orgulho português!

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