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Same Same But Different

Um blog repleto de ideias, textos, sonhos e aventuras de uma jovem maravilhada com o mundo em seu redor.

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Sonho de Menina

A propósito de um texto que li esta manhã no Facebook.

 

   Para mim nunca foi um sonho de menina. Foi algo que me ocorreu já com quinze anos, um sonho de adolescente, se assim o quiserem chamar. Um sonho que envolvia salvar animais da morte dia após dia, lidar com pessoas agradecidas, trazer ao mundo cachorrinhos e gatinhos e vê-los crescer. Na faculdade vivi o sonho. Foram os melhores anos da minha vida. Tínhamos tudo à nossa disposição, estávamos protegidos dentro de uma bolha, as espectativas eram elevadas, estávamos perante uma profissão de sonho. 

   Cá fora esse sonho de menina, de adolescente ou até de adulta esfumou-se, perante uma realidade cruel e fria. Tanta coisa que ninguém nos ensinou na escola. Tantas tristezas que se esqueceram de mencionar. Tantas dúvidas ao longo deste caminho solitário, durante o qual somos tantas vezes insultados, humilhados, espezinhados. Ouso usar a palavra arrependimento por um dia ter tido aquele sonho de menina (adolescente). Se não o tivesse tido, estaria certamente noutro caminho, talvez melhor, talvez pior. Mas tive esse sonho de menina. Ainda hoje o tenho, ainda hoje procuro por ele no meio da papelada das eutanásias, por entre consultas de animais que deviam ter vindo ao veterinário há dois dias atrás, ou há duas semanas, ou até há dois meses e para os quais poderá agora ser tarde de mais. Procuro por ele nos orçamentos que vejo e revejo vezes sem conta até que os donos (que por acaso estacionaram à porta da clínica num Porsche) estejam de acordo para pagar o que é pedido, e não mais do que o necessário. Suspiro por ele nas noites de vigília interminável, nas horas em que todos os demónios acordam e te põem a refletir sobre a vida. Vejo-o moribundo quando, no final do mês, olho para o meu salário e constato que ganharia mais a lavar pratos num restaurante. 

   Às vezes consigo viver esse sonho através dos olhos de um gato que, apesar de não se conseguir levantar, me pede festas com a cabeça. Ou na alegria de um cachorro que dá à cauda depois de ser operado a uma fratura. Até mesmo no sorriso de alguém que parte reconfortado para casa com o seu animal a meio da noite, sabendo que este não tem nada de grave. Às vezes, o sonho está presente. Mas é preciso imaginação e energia para o manter vivo e o que resta no fim de um turno são apenas centelhas daquele sonho de menina.

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