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Same Same But Different

Um blog repleto de ideias, textos, sonhos e aventuras de uma jovem maravilhada com o mundo em seu redor.

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Ultrapassar um Grande Amor

   Acorda estremunhada com o sonho insólito que ainda lhe tormenta a mente, banhada no seu próprio suor. Levanta-se de um salto, sem dar tempo ao corpo de se preparar para o movimento, fazendo com que a cabeça se esvazie de sangue e uma tontura quase a faça cair. Procura avidamente a agenda do ano passado, o coração a bater estremunhado no peito, as mãos frenéticas em busca do precioso objecto. Quando finalmente o alcança, o corpo volta a afundar-se nas profundezas do colchão e toda ela é sacudida por uma violenta vontade de chorar.

   O sonho fá-la voltar um ano para trás, para o dia em que escreveu aquele texto de alma e coração, para o dia em que se entregou toda, nem mais, nem menos, como nunca havia antes feito. Lágrimas saltam-lhe para os olhos à medida que vai lendo aquelas linhas. São lágrimas de saudade, de culpa, de raiva contra si própria. Como é possível que passado tanto tempo o seu inconsciente vá buscar aquelas palavras, exactamente um ano depois de terem sido redigidas?

   Esconde a cabeça na almofada, negando a si própria aquilo que já há muito recusa a admitir – nunca o esqueceu. É com vergonha que admite, com medo que assume, com desespero que reconhece. Um segredo bem enterrado, debaixo de litros e litros de terra, mas que com o passar do tempo se vai aproximando da superfície de novo, até voltar um dia a ver a luz do dia. Pergunta-se se será mesmo possível esquecer um grande amor. O primeiro. O único. Questiona-se se será necessário deixar correr o tempo, ou se pelo contrário, estará a construir o seu castelo em areias movediças, que um dia o engolirão intacto e a deixarão de novo soterrada, incapaz de respirar, sufocando, agarrada à garganta numa desesperada procura por ar fresco.

   As pessoas ultrapassam, porque é que ela não? Antes de voltar a fechar os olhos vermelhos e inchados (há tanto tempo que aquelas lágrimas estavam para ser derramadas, só agora reconhecia), conclui que se calhar, a maior parte não ultrapassa nunca. Pelo menos, não completamente. Limitam-se a viver assim no mediocre, no mais ou menos, na felicidade do quotidiano, sem ousar, sem insistir. Põem o amor louco de parte, deixam o impossível para os filmes e continuam a viver com aquilo que lhes traz estabilidade. Se calhar é assim que tem de ser. E adormece novamente, resignada ao fado que a vida lhe impôs.